Voltar para o blog
Maio 2026
Marília Karine

O TDAH é real? Por que existe tanta dificuldade em aceitar o transtorno?

O TDAH é real? Por que existe tanta dificuldade em aceitar o transtorno?

Um exemplo prático na minha clínica.

Estava eu em mais um dia de trabalho na clínica e chega uma criança de 11 anos encaminhada pela sua mãe devido a queixas relacionadas ao comportamento de Hiperatividade e Desatenção. Ela trouxe um relatório médico indicando que seu filho tinha o diagnóstico de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade com predominância de comportamentos Hiperativos/Impulsivos. Seguimos ao atendimento como sempre, falamos com a mãe e logo na próxima sessão recebemos a criança para atendimento. Após a sessão concluímos que aquela criança e a família necessitavam de um trabalho voltado para desenvolver um melhor manejo dos sintomas do TDAH nessa criança. Propusemos algumas recomendações e métodos para cuidar adequadamente da criança e, recomendamos, principalmente para a escola, manejos importantes para o cuidado e apoio ao aprendizado. Foi aí que tivemos uma surpresa, ou melhor, uma desagradável resposta da equipe escolar. Eles disseram que se negariam colocar em prática as recomendações por que não acreditavam que aquela criança precisasse de tratamento diferenciado, pois a criança era igual a todos de sua sala de aula e não deveria passar por situações vexatórias que sugerissem que ela era menos capaz por ter um tratamento diferente. A escola não acredita que o diagnóstico existe.

Vamos falar sobre o que aconteceu? Porque essa escola pensa que o TDAH não existe? Como podemos compreender melhor o TDAH?

Na minha prática clínica chegam muitos pais e responsáveis de crianças e adolescentes com suspeita de diagnóstico de TDAH. Muitas vezes eles vêm ao consultório com dúvidas e querem logo saber mais sobre esse transtorno. Doutora, esse "tal de TDAH" existe mesmo? Isso não é somente uma desculpa que inventaram para medicarem meu filho e controlar o comportamento dele? Será que não estão querendo "adequar" ou "conformar" o comportamento de minha criança? O TDAH não é um diagnóstico que inventaram somente para venderem mais remédios?

Outros pensam: como podemos fechar um diagnóstico de TDAH por causa de desatenção ou hiperatividade? Todos nós temos momentos de falta de atenção ou hiperatividade algum ponto de nossas vidas, todos somos, em alguma dimensão desatentos e/ou hiperativos. Esse TDAH é uma invenção! É uma doença que não existe!!!

A Organização Mundial de Saúde (OMS) e o TDAH

Vamos tentar esclarecer e compreender essas questões primeiramente reproduzindo o que a Organização Mundial de Saúde (OMS) disse a respeito do TDAH quando foi acionada a responder sobre a sua existência: "O TDAH é um dos transtornos mais bem estudados na medicina, com base em pesquisa e dados reais, sua validade é muito mais convincente que a maioria dos transtornos mentais e até mesmo que muitas condições médicas".

O TDAH, além de ser reconhecido oficialmente pela OMS, é considerado um transtorno por um consenso internacional de cientistas médicos e psicólogos de todo o mundo. Isso significa que, para entendermos o TDAH e termos a certeza que ele é um transtorno, extensos debates entre pesquisadores de todo o mundo, pesquisas e publicações científicas foram realizadas por diversos grupos diferentes e de instituições diversas. Essas instituições compartilham necessariamente as mesmas ideias sobre os sintomas do TADH. Isso nos traz a certeza que o TDAH existe em todas as populações mundiais com os mesmos sintomas e aspectos!

Dessa forma, pessoas que não compreendem adequadamente as informações científicas, ou são inocentes mesmo, continuam a afirmar que o TDAH não existe!

TDAH, um diagnóstico dimensional.

Existem pessoas que dizem que o TDAH não existe, pois todos podem ser desatentos e/ou hiperativos e isso por si só não seria suficiente para um diagnóstico. Quanto a essa questão, devemos pensar que quando falamos em diagnóstico existem duas formas diferentes de fazê-los, a depender da natureza desse transtorno. Pense em alguém que tem câncer, dengue, COVID-19, Hepatite. Essas pessoas "tem" ou "não tem" a doença. Esses diagnósticos são feitos por categorias. Agora pense em alguém que tem pressão alta, diabetes, obesidade e traços de transtornos personalidade. Esses são diagnósticas feitos dimensionalmente, ou seja, o transtorno ou a doença é verificada a partir de um ponto de intensidade. Todos temos em alguma dimensão características do transtorno, mas nem todos sofremos desse transtorno. O TDAH está dentro desse último grupo, pois, todos nós apresentamos em algum grau os sintomas de desatenção, hiperatividade e impulsividade presentes em portadores de TDAH, mas nem todos somos um TDAH. Mais precisamente, sabemos que somente cerca de 5% da população apresentam muito e muito mais sintomas de desatenção, hiperatividade e/ou impulsividade que os demais. O excesso de desatenção não ocorre em 95% das pessoas. Para concluirmos, não é uma questão de ter ou não ter TDAH e sim, com qual intensidade esses sintomas existem em minha vida.

Outro ponto importante a ser discutido é: o quanto um comportamento é normal? O quanto uma criança precisa se comportar para que tenha um comportamento adequado para o convívio e interação com ambientes e pessoas diferentes?

Existe uma faixa de variação de comportamento que chamamos de "normal", onde a maioria das pessoas se situam. Não podemos deixar de considerar esse fato. Por mais que saibamos ser flexíveis, esses comportamentos ditos "normais" dependem de padrões familiares de aceitação. Dependem dos diversos contextos em que convivemos e também de padrões individuais que acreditamos serem funcionais. Independentemente desses fatores, não podemos deixar de considerar que há uma expectativa de comportamento dentro de uma sociedade para o bom convívio e saudáveis relações e interações sociais. Há comportamentos esperados no convívio social. Pense em algumas situações: alguém te cumprimenta, quando está em uma fila de banco ou mercado. Você está a ouvir alguém ou uma explicação sobre algo. Você faz algo errado e precisa assumir o que fez e se desculpar. Você esquece de fazer algo importante. Você não consegue planejar o que precisa ser feito em um trabalho e não consegue entregar nos prazos pré-determinados. Em todas essas situações esperamos um comportamento adequado para manter as relações sociais e afetivas funcionando, em nosso cotidiano. Pois então: um indivíduo com TDAH apresenta muito mais dificuldade em se comportar adequadamente em cada um desses contexto ou situações. Esperamos um comportamento desses indivíduos que os façam funcionar no mundo, ou seja, na escola, faculdade, trabalho, relacionamentos afetivos, casamento, namoro, etc... Esses indivíduos não conseguem, em geral, gerenciar adequadamente seu comportamento e emoções dentro do que se espera das pessoas no cotidiano.

A criança com TDAH precisa ter as mesmas oportunidades que as outras.

Sempre falo para os pais que me procuram que o diagnóstico do TDAH não é algo inventado. O diagnóstico é feito para compreendermos melhor o funcionamento do seu filho em sua vida e para que possamos apoiar o seu desenvolvimento saudável. Todos os pais esperam que seu filho se comporte bem em sala de aula, que entregue seus trabalhos de escola em dia, que não levante o tempo todo de sua cadeira na aula, que consiga prestar atenção ao que foi dito a ele para melhor aprender. Todos os pais querem que seus filhos sejam felizes e tenham as mesmas oportunidades que as outras crianças na vida. O TDAH existe, e quando o negamos, tiramos de nossas crianças o direito de serem cuidadas, apoiadas e aceitas como elas são. Retiramos a oportunidade de elas terem os mesmos direitos que os outros, pois não damos a elas o contexto organizado, planejado e amoroso que elas merecem para vencerem os sintomas que apresentam, sintomas que não controlam conscientemente.

É muito importante dizer que é extremamente prejudicial para a criança e para toda a família não admitir o Transtorno.

O TDAH pode levar seu filho a se comportar de modo a não aprender, mesmo apresentando uma inteligência excelente.

Além disso, pode levar seu filho a não desenvolver relacionamentos saudáveis com outras crianças de mesma idade, pois o TDAH dificulta o gerenciamento de emoções que se mostram em comportamentos como não saber a hora de deixar o amiguinho brincar, não saber a hora de parar uma brincadeira, não dar conta de seguir regras básicas no convívio.

Quando uma família apoia e cuida de seu filho com TDAH, essa família acolhe o filho como é, acolhe as dificuldades pelas quais passam, reconhece que o filho precisa de ajuda para se colocar no mundo em pé de igualdade com os outros, reconhece as dificuldades como família e, com muito amor e paciência, planejam juntos a melhor forma possível de cuidar da criança.

A regra de ouro.

Lembre-se sempre que seu filho está sempre tentando corresponder às expectativas da família, mas às vezes não consegue. Vocês, pais, devem ser otimistas, pacientes e persistentes com ele. Não desanimem diante dos possíveis obstáculos! Sempre procure ajuda de um profissional qualificado da área.

BIBLIOGRAFIA

Associação Brasileiro de Déficit de Atenção – ABDA. TDAH no adulto: algumas estratégias para o dia-a-dia. Acesso em: 8 de novembro de 2020. Site de Acesso: https://tdah.org.br/

Mattos, Paulo. No Mundo da Lua: Perguntas e respostas sobre Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade em Crianças, Adolescentes e Adultos. 16ª ed. Associação Brasileira de Déficit de Atenção e Hiperatividade – ABDA.

Transtorno de déficit de Atenção. Uma conversa com educadores. Site de acesso: https://www.tdah.org.br/wp-content/uploads/site/pdf/tdah_uma_conversa_com_educadores.pdf

Organização Mundial da Saúde (1993). Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Artes Médicas, Porto Alegre.

Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

Falar com a NeuroPsiEdu pelo WhatsApp